"(...) um aparelho de rádio, de toalhinha de crochet no tampo, que jamais funcionou por não existir corrente nessa zona da vila, uma caixa de pau que a minha mãe encerava com amor e de que ficava rodando os botões por muito tempo, apaixonada pelo ponteiro que viajava às sacudidelas ao longo de uma floresta de números, e orgulhosa da música e das vozes emudecidas que continha.
(...) a recordar o dia tremendo em que ela acabou de encerar o rádio com uma pomada especial que custou no mínimo metade do ordenado do meu pai, arrumou o aparelho sobre a toalha de enxoval, com figurinhas e pássaros, da mesa de comer, toucou-o com um naperon engomado e a fotografia do padrinho na época em que assentou praça em Viseu, de perna cruzada num banco de jardim diante de um telão da Torre Eiffel, e rodou o ponteiro das vozes e da música amordaçadas pela falta de electricidade de Nelas, e prontas a empurrarem-se para sair da caixa de ressonância num fluxo feroz de reclames de pastilhas para a tosse e de marchas militares. O mostrador iluminou-se, mudou do negro ao rosa e do rosa ao dourado vivo das auréolas dos santos, um uivo de farol aumentou das entranhas da máquina a anunciar nevoeiros hertzianos, o meu pai e nós sentávamo-nos diante da telefonia como na plateia do cinema, o bugio cresceu acompanhado de roncos e de cuspos, a minha mãe, escarlate de decepção, girou a antena à cata de um posto mais benigno, uma traqueia doente silabou um discurso incompreensível e naufragou num vendaval de crocitos, logo substituída por um fragmento de valsa e uma segunda garganta que parecia dialogar com a primeira e que um ruído de fritura ou de leite derramado sumiu numa desordem de chispas.
- Desliga isso, pediu o meu pai, inquieto, a olhar o rádio que transbordava da mesa. Daqui a nada rebentas os fusíveis da cidade.
(...) a minha mãe correu para a telefonia na ideia de acertar a agulha do mostrador pelo Te Deum da emissora católica, que com o auxílio da Virgem lhe salvaria o tesouro das chamas, o meu pai despenhou um hipopótamo niquelado a lamentar-se Nunca há vinho nesta casa, que porra, quero cá saber de batatas e feijões que não alimentam ninguém, e nisto uma bobine ou uma resistência qualquer explodiu nos intestinos do aparelho, as minhas irmãs esvoaçaram aos gritos pela sala fora, e uma segunda resistência fulminou os candeeiros no instante em que os dedinhos indagantes do meu pai alcançavam um gargalo de água-pé oculto por detrás do frigorífico. Um pasodoble toureiro irrompeu numa majestade litúrgica e faleceu em claridades de magnésio, e de súbito, disse o Juiz, a caixa transformou-se numa pirotecnia de faúlhas, de foguetes de lágrimas, de relâmpagos, de bichas de rabiar, de ziguezagues de molas, de madeira queimada, de metais que escorriam, a minha mãe, armada de um travesseiro de palha, apagava as labaredas que surgiam sobre a mesa, soprava um naperon em torresmos, entornava uma cafeteira de água na telefonia desfeita, pisava o retrato da Torre Eiffel que caíra no chão num cintilar de iodo, e ao tornar da luz vimo-la juntar no avental os pedaços calcinados do que durante tantos anos, na Beira, a fizera sonhar, invernos e invernos, com foxtrotes de coreto e fandangos de romaria e colocar os carvões no crochet esburacado, vimo-la lançar pela janela as cinzas da fotografia, e vimo-la sentar-se na plateia, de mão em concha no ouvido, ao lado da minha irmã mais velha, a escutar enlevada os inaudíveis locutores de sempre, que desde o seu casamento cochichavam, só para ela, um impetuoso amor feito de notícias de descarrilamentos de comboios na Polónia, de tufões nas Caraíbas e de escândalos financeiros no Japão, enquanto o meu pai, de bruços no soalho, perorava, de nádegas ao léu, na grossa paz do vinho, povoada de quando em quando de sustos de aranhas e de ratos."
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