


Nunca (nunca?) o Orwell pensou que se pudesse aproximar tanto da realidade.
O Big Brother anda aí e sabe de nós (muito embora isso não nos preocupe especialmente, para já). Deu-nos uma bola de cristal que nos deixa brincar aos little big brothers e persegue-nos em silêncio.
Não temos câmaras de vigilância nas paredes de casa (mas exigimo-las nas ruas! sr. Lopes, se prometer esbanjar todo o dinheiro num sistema de videovigilância no centro da cidade, votamos em si. e olhe que não somos poucos) nem fazemos exercício regular (em casa, note-se).
Mas temos o sexo sacralizado, quase criminalizado.
Toda a gente pode ter uma opinião acerca da vida sexual dos outros, embora as suas próprias não sejam assunto de conversa.
Chama-se a isso: inveja ou falta se sexo.
Orwell chamou-lhe sexcrime, ou seja, a sexo é aglutinada a palavra crime, para constituírem uma só palavra do newspeak.
Os novos habitantes deste mundo seriam condicionados também pela linguagem, e evitariam o sexo, que na realidade lhes era proibido.
Até que dois desses habitantes passam pela eterna história do amor proibido, que sabemos mas que continua a ser notável em 1984.
Os Eurythmics, que é quem aqui nos interessa, nestas suas deambulações de intervenção, pegaram em
sexcrime para fazer um dos dois temas da banda sonora da adaptação para cinema de
1984, por Michael Radford também em 1984.
A música é precisamente sobre tudo isto, com a vontade de violar as regras.
São sintetisadores e a voz num misto de sedução e violência.
O vídeo intercala imagens do filme de Radford com a performance de Lennox e Stewart em trajes em tom de uniforme civil.
Durante anos dançámos ao som de
Sexcrime sem sabermos o que fazíamos.
Hoje engolimos em seco.
Que bom era ser adolescente e não saber de nada.